Um Réquiem Para a Eletrobras

Ronaldo Bicalho (*)

Me contam que a Eletrobras mudou de nome. Agora tem um desses nomes que as consultorias cobram uma grana preta pra criar e não significam coisa alguma.

Dizem que mudou de nome pra esquecer o passado. Eu aqui com os meus botões acho que não. Não mudou de nome pra esquecer o passado, mas pra assumir o presente.

Não mudou de nome para deixar pra trás o peso dos compromissos do passado estatal, mas pra aproveitar os descompromissados ganhos privados do presente.

Abandonou o peso dos compromissos pra assumir a leveza do não tô nem aí. E se a farinha é pouca, o meu pirão primeiro.

Deixou o nome honrado do passado pra cair na vida.

Melhor assim.

Dessa maneira não envergonha os homens e mulheres que ao longo de uma história honrada construíram uma empresa que trouxe energia e desenvolvimento para o país.

Dessa maneira mantem-se a reputação desses homens e mulheres. Não precisam se envergonhar pelo que se transformou a companhia.

Do motor de desenvolvimento a uma empresa de telemarketing que vende energia.

Da construção de novas centrais e linhas de transmissão ao uso intensivo daquilo que outros construíram.

Do compromisso com a construção da riqueza no futuro ao descompromisso da dilapidação da riqueza que veio do passado.

Da luta contra a escuridão ao desfrute dos ganhos advindos da escuridão precificada.

Do enfrentamento da escassez que gera o atraso à locupletação da escassez que gera valor.

A tigrada do mercado urra e se refastela.

É tosca.

Melhor assim

Preserva-se a compostura do passado diante da descompostura do presente.

Preserva-se o respeito daqueles que se davam ao respeito diante daqueles que hoje vendem e alugam esse respeito.

Preserva-se a dignidade daqueles que pensavam o país diante daqueles que se locupletam com o país.

Preserva-se a coragem daqueles que sonhavam com o futuro diante da covardia daqueles que destroem esse futuro.

Então melhor assim.

O que está aí não tem nada a ver com a velha Eletrobras.

É um braço que nem um pedaço do meu pode ser.

É um nome vazio. Não tem passado. Não tem futuro.

É só mais uma tacada. Uma forma de espoliar o país e a sua gente.

Vão chupar até a última gota e jogar o bagaço fora.

Mas o país é maior do que isso. Nós somos maiores do que isso.

Essa mediocridade vai passar e a gente vai se reencontrar com a nossa história.

A Eletrobras morreu. Vida longa a Eletrobras.

(*) Pesquisador do Instituto de Economia da UFRJ



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