Transcrição de áudio - Curto-Circuito 64: Transição Energética: A Era da Eletricidade Está Chegando

Meus amigos e minhas amigas, bem-vindos a todos e a todas ao canal do Instituto de Economia da UFRJ.

Eu sou Ronaldo Bicalho e esse é o Curto-Circuito, um programa do Grupo de Economia da Energia que discute as grandes questões do setor elétrico aqui e no mundo.

Nesse Curto-Circuito de número sessenta e quatro, eu gostaria de conversar com vocês sobre uma grande transformação que está ocorrendo no sistema energético no mundo.

Essa transformação foi apontada pelo último Panorama Energético publicado pela Agência Internacional de Energia.

No seu Energy Outlook de dois mil e vinte e quatro, a agência anunciou que, depois da era do carvão, depois da era do petróleo, nós estaríamos entrando numa nova era no mundo da energia, que seria a era da eletricidade.

É evidente que uma mudança como essa tem implicações importantes, tem consequências cruciais para a evolução do mundo da energia.

Porque quando você muda a fonte principal do seu sistema energético, quando você muda o protagonista da cena energética, é claro que isso tem consequências.

Isso implica que você pode mudar de uma forma drástica tanto a forma como a gente usa a energia, quanto a forma como a gente produz a energia.

E mais do que isso, a gente muda a maneira como a gente faz a mediação entre as nossas necessidades energéticas e os nossos recursos naturais.

E muda em termos técnicos essa mediação, em termos econômicos, em termos organizacionais, institucionais e até mesmo em termos políticos.

Então nós estamos falando de uma mudança importante.

Ou seja, se você muda o seu principal jogador, o seu jogador crucial, decisivo, é evidente que o próprio jogo, a própria maneira de jogar, também muda.

Então, é justamente sobre esse tema, sobre essa transformação, que eu gostaria de conversar com vocês nesse Curto-Circuito Sessenta e Quatro.

Lembrando sempre que é uma boa oportunidade, quando a gente tem um tema como esse, de ampliar os nossos horizontes, de ir além do setor elétrico, de colocar os problemas nossos do dia a dia, esses problemas que a gente discute sempre aqui no Curto-Circuito, num contexto mais amplo, num contexto do setor energético.

Então é uma oportunidade.

Eu gosto muito de discutir esses temas, porque eles ajudam muito a gente a entender e ajudam muito a gente a compreender também o que está acontecendo no setor elétrico.

Então esse é o nosso tema de hoje.

Essa nova era, a era da eletricidade, que a gente está desembarcando no mundo da energia.

E antes de começar, eu gostaria de chamar a atenção de vocês para os dois pontos.

O primeiro deles é que os vídeos que a gente citar nesse programa, os textos que por acaso a gente citar nesse programa, os links desses textos, desses vídeos, esses links vão estar na descrição do vídeo no YouTube, que geralmente fica aqui embaixo.

Se você olhar aqui embaixo, está lá a descrição.

Então os links desses textos, os links desses vídeos vão estar nessa descrição.

Essa descrição também traz uma classificação desse programa, e também diz os links em que você pode acessar programas semelhantes a esse, que é, por exemplo, uma coisa simples, esse é um curto-circuito de política energética, é um tipo de programa, é um tipo de curto-circuito que a gente discute as grandes questões da política energética e o seu desdobramento sobre o setor elétrico.

Então você encontra nesse Política Energética, aqui nessa descrição, você vai encontrar os links para os outros cursos programas do curto-circuito que também discutem política energética.

O segundo ponto que eu gostaria de chamar a atenção de vocês é, olha, se você quer ouvir esse programa na forma de podcast, porque isso é mais confortável para você, isso é mais adequado ali ao seu dia a dia, você encontra esse programa no canal IE-UFRJ.

Em qualquer tocador, em qualquer player, de podcast, você encontra o canal IE-UFRJ lá e encontra o programa O Curto-Circuito.

Então vamos começar a nossa conversa, começar pelo princípio.

Afinal, que nova era da eletricidade é essa que a Agência Internacional de Energia está falando.

A Nova Era da Eletricidade

Todo ano, a Agência Internacional de Energia publica um relatório chamado Panorama Energético Mundial, o seu World Energy Outlook.

Nesse relatório, a agência apresenta uma série de cenários sobre a evolução do sistema energético mundial nos próximos anos.

Esses cenários são baseados nas políticas energéticas que estão sendo implementadas nos países, ou aquelas políticas energéticas, aquelas promessas anunciadas pelos países, ou mesmo em algumas metas.

Por exemplo, chegar em dois mil e cinquenta com uma emissão líquida de CO₂ de zero.

Então, baseado nessas diferentes hipóteses, eles vão construindo os seus cenários.

Nesse ano, a Agência Internacional de Energia também publicou o seu Energy Outlook em outubro.

A publicação geralmente é em outubro ou em novembro, apresentando lá suas perspectivas, apresentando os seus cenários sobre a evolução do sistema energético mundial.

O que me chamou a atenção nesse relatório é a afirmação da agência de que uma nova era no mundo da energia estava chegando, que seria a era da eletricidade.

Então, depois da era do carvão, que foi aquela era, aquele mundo da energia, que começou lá com a Revolução Industrial, com o carvão, com a máquina a vapor, com os teares, e que durou até o final do século XIX e o início do século XX, quando você começou, quando iniciou-se a era do petróleo. Aquela era que nós ainda estamos vivendo até hoje.

E a Agência Internacional de Energia afirma que, depois da era do carvão, depois da era do petróleo, a gente estaria chegando, estaria desembarcando numa nova era, que seria a era da eletricidade.

Isso implica, se a Agência Internacional de Energia está certa, que nós estamos começando, nós estamos adentrando num novo mundo da energia e num mundo da energia no qual o ator principal vai deixar de ser o petróleo e vai passar a ser a eletricidade.

Eu gostaria, nesse nosso primeiro bloco aqui, de discutir as causas.

Bom, mas por quê?

O que está acontecendo?

Para, num segundo bloco, a gente discutir as implicações, as consequências dessa mudança.

O que está se dizendo e o que a agência está afirmando é que você está tendo um processo de eletrificação da matriz energética mundial.

Ou seja, você está aumentando a participação da energia elétrica na matriz energética.

Ou seja, nós estamos usando cada vez mais a eletricidade para satisfazer as nossas necessidades energéticas.

Na última década, a taxa de crescimento do consumo, do uso da energia elétrica, foi o dobro da taxa de crescimento do uso da energia como um todo.

Ou seja, o consumo de energia elétrica no mundo foi duas vezes o consumo de energia no mundo.

Então você saiu de uma participação da energia elétrica de alguma coisa em torno de dezessete, dezoito por cento, para vinte por cento.

Isso em termos de matriz energética mundial, esses dois por cento, isso é muita coisa.

Mas o que tem de interessante aqui é que a agência internacional diz que isso vai acelerar, vai ficar mais rápido.

De tal forma que, quando você olha os cenários, você vê assim, pela Agência Internacional de Energia, a gente pode chegar a uma participação da energia elétrica em dois mil e cinquenta, a uma participação de cinquenta e cinco por cento.

Ou seja, você vai sair de uma participação da energia elétrica no consumo de energia de vinte por cento, que é hoje, por uma participação de cinquenta e cinco por cento.

É uma aceleração muito forte, é uma eletrificação muito forte.

Isso no cenário de emissões zero, emissões líquidas zero.

Mas mesmo quando a gente olha para o cenário das políticas estabelecidas, daquelas políticas que estão rolando hoje, você sairia de uma participação no consumo por parte da eletricidade de vinte por cento, que você tem hoje, por uma participação de trinta e dois por cento.

E isso é bastante coisa.

Então, você tem esse movimento.

Esse movimento está acontecendo.

Esse movimento aconteceu nos últimos anos.

Você eletrificou a matriz energética mundial.

Mas mais do que isso, mais do que aconteceu nos últimos dez anos, é aquilo que se antevê para os próximos vinte anos.

Para os próximos vinte, vinte e cinco anos.

É uma aceleração desse processo.

Mas por que a gente observa essa aceleração?

O que está acontecendo?

O que está por trás dessa eletrificação tão forte?

Tem vários fatores que são apontados no relatório da Agência Internacional.

Eu acho que tem questões que são questões associadas à digitalização, associados ao uso da inteligência artificial, que representa o maior consumo de energia elétrica nos data centers.

Existe a utilização de tecnologias que aumentam a produtividade na indústria, no comércio, nos serviços, tecnologias que implicam o uso mais intensivo da energia elétrica.

Isso é um tipo de fator que está por trás da eletrificação. No qual, na verdade, a gente vai incorporando mais usos da energia elétrica.

E que são usos muito específicos da energia elétrica.

São quase usos cativos da energia elétrica.

Mas existem outros fatores também.

Existem fatores econômicos associados ao desenvolvimento econômico, que diz respeito ao que acontece principalmente nos países emergentes e nas economias em desenvolvimento, que é a melhoria da renda e, a partir dessa melhoria de renda, você aumentar o acesso a compra, a aquisição de equipamentos, de dispositivos elétricos que acabam rebatendo, tendo como consequência o maior aumento do consumo de energia elétrica.

Um exemplo simples é o uso do aparelho de ar condicionado para a refrigeração.

Então, o que acontece?

Essas populações melhoram de vida, aumentam o nível da renda, compram justamente os aparelhos de ar-condicionado e você então aumenta o uso da energia elétrica em refrigeração justamente a partir dessa melhoria da vida, da melhoria de vida das populações dos países emergentes, das economias emergentes, das economias em desenvolvimento.

Isso é um outro tipo de fator que você observa principalmente na Ásia, China, Índia, Sudeste Asiático, esse é um outro movimento por trás da eletrificação.

Além desse movimento, existe um outro tipo de movimento que está associado às mudanças climáticas, que são as ondas de calor, às temperaturas mais elevadas e que demandam o quê?

Demandam mais refrigeração.

E quem é que está na ponta dessa refrigeração?

A Energia elétrica.

Ou seja, essa maior demanda por refrigeração para atender essa necessidade energética, advinda justamente do aumento das temperaturas, das grandes ondas de calor, acaba rebatendo aonde, acaba chegando aonde?

Acaba chegando no maior consumo de energia elétrica.

Esse é um fator também.

O outro fator muito importante é justamente a descarbonização.

É a substituição dos combustíveis fósseis pela energia elétrica.

Esse, sem dúvida, é um fator muito forte.

O exemplo melhor disso é a mobilidade elétrica.

É o carro elétrico, quando a gente tem a substituição da gasolina, do diesel, que são derivados de petróleo, que são combustíveis fósseis, que são substituídos pela energia elétrica.

E isso serve também no âmbito da indústria, também no âmbito do comércio, dos serviços, também no âmbito dos edifícios, das residências, que é a penetração da energia elétrica substituindo o combustível fóssil em função do quê?

Em função da necessidade da descarbonização.

Esse também é um ponto.

Agora, observa bem.

Esses fatores atuam no nível do uso, do uso da energia elétrica.

Mas existe também uma demanda por mais energia elétrica, por maior consumo de energia elétrica, é quando a energia elétrica substitui os derivados de petróleo, os combustíveis.

Por exemplo, na produção de hidrogênio, na produção de hidrogênio.

Então você está usando a energia elétrica, essa energia elétrica vai ser transformada em combustível, em hidrogênio, para ser usada na indústria.

Por exemplo, a siderurgia verde, aquela siderurgia que substitui os combustíveis fósseis por energia elétrica.

Essa coisa que passa desde a digitalização, que passa pelo data center, que passa pelo carro elétrico, passa pela produção de hidrogênio.

Se você bota tudo isso em cima da mesa, quer por avanço da economia, quer por inovação tecnológica, quer por aumento de produtividade, quer por descarbonização, tudo isso leva a um maior consumo de energia elétrica, leva a uma eletrificação da nossa matriz energética.

Então esses fatores são fatores muito poderosos dentro do mundo da energia que acabam gerando uma maior demanda de energia elétrica.

Então cada vez mais a energia elétrica vai se tornando um protagonista.

Desloca o pouco que você tem de carvão, desloca os derivados de petróleo e mantém ali um pequeno espaço para o gás.

Mas no limite também desloca o gás.

Não se esqueçam que em alguns estados americanos, os novos edifícios, os novos prédios comerciais ou residenciais que são construídos em alguns estados, em algumas cidades, eles não têm mais distribuição de gás interna, não tem mais tubulação de gás, porque o gás é um combustível fóssil.

Então para restringir o uso do combustível fóssil e avançar na descarbonização para enfrentar a mudança climática, você proíbe.

Então uma série de usos que eram atendidos pelo gás nesses edifícios passam a ser atendidos pela energia elétrica.

Então sem dúvida, mesmo no caso do gás. Então, sem dúvida que a gente tem um movimento muito forte de eletrificação da matriz.

Agora, tudo bem, nós temos esse movimento.

Quais são as consequências desse movimento?

Quais são as consequências dessa eletrificação?

Tem algumas consequências, pelo menos nesse âmbito que a gente está discutindo aqui, que é o âmbito da utilização, que é, sem dúvida, a melhoria da eficiência do uso energético.

A eficiência energética aumenta quando você usa a energia elétrica para satisfazer as suas diversas necessidades.

Necessidade de calor, necessidade de refrigeração, necessidade de força motriz.

A energia elétrica é uma fonte muito eficiente.

No nível do uso, ela é, sem dúvida, a melhor fonte que você tem.

Então, essa eletrificação... se ela representa um aumento significativo na demanda de energia elétrica, no consumo de energia elétrica, é interessante porque ela pode representar um crescimento menor do consumo de energia como um todo.

Ou seja, se nós tivéssemos que atender a essa expansão da demanda, não pela eletricidade, mas por outros combustíveis, a quantidade total de energia seria maior do que aquela que quando a gente faz isso utilizando energia elétrica.

Mas por quê?

Porque a gente está colocando em campo um jogador mais eficiente.

Então, pelo menos no âmbito do uso, há uma discussão, há uma tendência, há uma análise que chama atenção para isso.

Olha, nós vamos consumir menos energia.

E nós vamos consumir menos energia por quê?

Porque nós estamos entrando com uma fonte mais eficiente.

E mais do que isso, nós podemos também consumir menos energia primária, menos recursos.

Porque algumas conversões para a produção de energia são mais eficientes do que aquelas que nós temos nos combustíveis fósseis.

Mas esse é justamente o assunto que nós vamos adentrar agora.

Por quê?

Porque, gente, nós vamos aumentar a demanda de energia elétrica.

Evidente.

Está colocado aí a eletrificação, a era da eletricidade.

Tudo bem.

Vai ter mais eletricidade na parada.

Mas como é que a gente vai fazer para atender essa eletrificação, para atender essa expansão da demanda de energia elétrica?

A gente vai ver que isso é um baita desafio.

E é justamente isso que a gente vai ver agora.

Quais são as implicações para o sistema energético, justamente dessa eletrificação?

Como é que a gente vai mediar?

Como é que a gente vai armar o nosso time, tendo por um lado o crescimento das necessidades energéticas e de necessidades energéticas atendidas pela energia elétrica?

Como é que a gente vai armar esse meio de campo?

Como é que a gente vai fazer a mediação entre essa eletrificação aqui do uso e aqui na outra ponta os recursos naturais que a gente dispõe.

Como é que a gente arma esse jogo?

Vamos dar uma olhada nisso.

Quais são as implicações da eletrificação do sistema energético?

A Eletrificação do Sistema Energético

Eu gosto muito dessa discussão.

Eu acho que discussões como essa nos dão a oportunidade de sair um pouco do cercadinho e discutir o setor elétrico com uma visão mais ampla, trazendo outras coisas para essa discussão, uma visão mais global, uma visão de economia da energia.

A minha geração, eu acho, que foi a última geração de economistas da energia que foram formados assim tendo uma visão mais ampla do problema energético, tendo uma visão essencial de política energética, e não simplesmente de política setorial, setor de petróleo, setor de gás, setor elétrico.

Eu acho que hoje as discussões são muito setoriais.

Então se perde a riqueza que é ter uma visão que contemple o mundo da energia comum.

Olha bem esse caso.

Quando você fala assim, olha, de agora em diante, a energia elétrica vai ser “o cara” no mundo da energia.

O que isso significa?

Quais as implicações?

É claro que a primeira coisa que você se pergunta é, mas me diz uma coisa, o que esse cara tem de diferente em relação aos outros caras?

Quais são as características, qual é a natureza da energia elétrica que a torna diferente do petróleo, do carvão?

O que tem de diferente aqui?

Pois eu te diria assim, começando pelo basicão, pelo mais básico, eu te diria o seguinte, olha só, para começar, a energia elétrica é uma energia secundária, é uma fonte energética secundária.

Ao passo que o petróleo, ao passo que o carvão, são energias primárias.

Se você não tem conhecimento de economia da energia, você vai perguntar, Ronaldo, o que significa isso?

Meu amigo, isso significa o seguinte.

Uma energia primária é aquela energia que você encontra na natureza.

E você pode usar essa energia na forma que ela se encontra, dando assim uma pequena... pequena adequação nela, muito pequena, você pode usar essa energia diretamente naqueles equipamentos usando a tecnologia de uso que você dispõe hoje.

Ou seja, a sua tecnologia de uso da energia contempla usar diretamente essa energia que você encontra na natureza.

Carvão, por exemplo.

Então eu posso pegar o carvão, colocar o carvão numa caldeira e queimar diretamente esse carvão.

O máximo que você vai fazer é dar um beneficiamento naquele carvão.

Então essa energia primária não necessita nenhum tipo de transformação.

O que é a energia secundária?

Como é o caso da energia elétrica.

Essa energia secundária não é encontrada diretamente na natureza.

Se a sua tecnologia de uso emprega uma energia secundária, você vai ter que adequar, vai ter que transformar algum tipo de energia primária nessa energia secundária, porque aí sim você vai poder utilizar essa energia secundária no seu equipamento, no seu dispositivo.

Então, nota bem, a transformação de energia é justamente essa conversão, essa transformação, essa adequação daquela energia que você encontra na natureza para ser usada pela tecnologia de uso de energia que você dispõe.

Então, se você pensar em termos de uma cadeia energética, as energias primárias se encontram no nível da cadeia energética e as energias secundárias se encontram em outro nível mais avançado dessa cadeia energética.

Então, eu pego uma energia primária, por exemplo, como o carvão, coloco numa central térmica, que é um centro de transformação, e transformo essa energia primária, que é o carvão, numa energia secundária, que é a energia elétrica.

Então, se você pensa lá atrás, o que é bastante razoável, na primeira grande era, que era a era do carvão, o que você tinha era uma energia primária. uma energia primária que você usava, que você queimava, uma máquina a vapor, que você usava na indústria, que você usava na maria fumaça, no transporte ferroviário, enfim, você podia usar o carvão diretamente e a sua tecnologia de uso permitia esse uso imediato.

Mas, Ronaldo, o que significa você estar mais avançado na sua tecnologia, na sua cadeia energética?

Porque se a gente pensar bem, você não usa o petróleo diretamente.

Não é isso?

Você também tem que pegar o petróleo, colocar ele numa refinaria, produzir a gasolina, aí essa gasolina, que também é uma energia secundária, é que vai ser utilizado no carro, no automóvel, no motor a combustão interna.

Eu não uso o petróleo diretamente.

Sim, você tem razão.

Quando a gente pensa nos derivados do petróleo, eles estão na cadeia energética, em um nível mais alto do que o do petróleo e do que do carvão.

Então você avançou na tecnologia, você avançou na cadeia energética.

Acontece que esse derivado de petróleo, quando você pensa na eletricidade, a eletricidade é uma fonte de energia que você tem que avançar mais nessa cadeia.

Por quê?

O que tem de interessante na geração de eletricidade?

Na produção dessa fonte de energia secundária.

É porque está presente na geração de eletricidade a conversão de energia.

Quando você entra em uma refinaria, a energia que está contida no petróleo está contida na forma de energia química potencial.

Quando você sai com os derivados de petróleo, a energia que está contida nesses derivados de petróleo está na forma de energia química potencial.

Então, na refinaria, você não tem conversão de energia de uma forma em outra.

Mas em qualquer central de geração, você tem essa conversão.

Então, o que caracteriza a geração de energia elétrica, é que é um processo de transformação que envolve a conversão das formas de energia.

Então você entra com a energia na forma de energia nuclear e converte essa energia da forma de energia nuclear em energia elétrica.

Você entra em qualquer central térmica na qual a energia está na forma de energia química potencial e vai transformar essa energia química potencial em energia elétrica.

Então você tem a conversão.

Numa hidrelétrica, é energia na forma de energia hidráulica, de energia potencial, em energia elétrica.

Também tem a conversão que você encontra quando você converte a energia dos ventos, energia mecânica, em energia elétrica, que é uma forma de energia.

Energia fotovoltaica em energia elétrica.

Ou seja...

O que é importante ter atenção aqui é que a energia elétrica é uma energia secundária, que para você ter essa energia, você precisa ter um processo de transformação que envolve conversão.

E esse processo de conversão, ele é mais sofisticado, ele é mais complexo em termos tecnológicos.

Então, na verdade...

A questão aqui é a seguinte.

Quanto mais você avança na cadeia energética, você demanda mais tecnologia, você demanda mais processos, você demanda mais investimentos, mais investimentos na produção dessa energia.

Então você pode pensar assim, em você pegar lenha, pegar lenha, que é uma fonte de energia primária, que é uma fonte de energia que você encontra na natureza, e colocar num fogão a lenha.

E dessa forma atender a sua necessidade de cocção, de energia para cozinhar os alimentos.

Olha que cadeia simples.

Lenha, peguei na natureza, coloquei no meu equipamento e já tenho aquele calor que satisfaz a minha necessidade de cocção.

Agora você pensa numa cadeia no qual você pega urânio natural, passa pelo enriquecimento desse urânio natural, que é um processo de transformação, pega esse urânio enriquecido, joga numa central nuclear, gera eletricidade, essa eletricidade vai para um fogão elétrico e te dá aquele calor que você precisa para cozinhar o seu alimento.

Então você parte da mesma necessidade, que seja uma cocção, parte de um recurso natural, que é a lenha, e parte de outro recurso natural, que é o urânio natural.

Olha como são cadeias completamente diferentes.

A cadeia do urânio, a cadeia de atender, de esquentar uma água a partir do urânio natural ou a partir da lenha, são cadeias completamente diferentes.

E a cadeia do nuclear é uma cadeia muito mais complexa, muito mais sofisticada, demanda muito mais tecnologia, demanda muito mais investimento, demanda uma organização da cadeia muito mais sofisticada, muito mais complexa em termos organizacionais, em termos institucionais, em termos regulatórios.

Olha sobre o que a gente está falando.

Então, quando você fala assim, vou botar esse cara aqui que é energia elétrica no lugar dos outros, você complexificou a sua cadeia.

Ou seja, esse sistema energético baseado na energia elétrica é, por definição, um sistema mais sofisticado, um sistema mais complexo.

Naturalmente.

Ele é mais sofisticado, ele é mais complexo em termos técnicos, ele é mais sofisticado, ele é mais complexo em termos econômicos, em termos organizacionais, a organização da cadeia produtiva, a organização das empresas, a definição do modelo de negócio.

Ele é mais sofisticado, ele é mais complexo em termos institucionais, na definição da regulamentação, na definição das políticas públicas, mais sofisticado, mais complexo, na coordenação dos interesses.

Então, a eletrificação da matriz energética, o fato da energia elétrica se tornar o novo protagonista do sistema energético, tem uma implicação imediata, que é fruto da própria natureza, da própria natureza da fonte de energia elétrica.

Do fato dela, a energia elétrica, ela ser diferente do petróleo, diferente dos derivados de petróleo, diferente do carvão, diferente do gás, ela é uma fonte mais complexa, mais sofisticada. O desafio, o abastecimento, o abastecimento dessa energia elétrica é mais complexo, é mais difícil.

Os desafios são maiores.

Pelo simples fato de que essa fonte é diferente das outras.

Então a questão é simples, essa é imediata.

Porque energia elétrica, meu amigo, não é uma fonte primária como é o petróleo e como é o carvão.

A energia elétrica é uma fonte secundária.

A gente não a encontra na natureza, nas condições de usá-la diretamente.

Não é possível.

Olha como é que o jogo já ficou diferente.

E aí nós vamos para um segundo ponto, mas não é só isso, o fato de ser uma energia secundária.

Olha bem o que é energia elétrica.

Essa discussão que nós temos aqui continuamente no curto-circuito.

O que caracteriza a energia elétrica?

A energia elétrica tem uma característica muito importante.

Primeiro, ela não é estocável.

Ela é uma energia que, por enquanto, você usa ao mesmo tempo em que você a produz.

Segundo lugar, ela tem uma natureza sistêmica.

Como assim, Ronaldo?

Sim, amigos, já discutimos tantas vezes isso aqui.

O que caracteriza os processos que produzem, transportam, exportam, distribuem e utilizam energia elétrica.

É que esses processos fazem parte de um único sistema.

Então, o que caracteriza os processos, quando a gente vai discutir sobre energia elétrica, é que esses processos, o que caracteriza esses processos é a sua dimensão sistêmica e a forte interdependência existente entre eles.

O que coloca desafios técnicos, econômicos, institucionais, regulatórios, completamente diferentes daqueles desafios que você tem no petróleo, gás ou carvão que não têm essa dimensão sistêmica.

Então, no caso da energia elétrica, é fundamental, quando você está falando sobre o abastecimento de energia elétrica, você está falando sobre o quê?

Você está falando sobre uma questão, um problema sistêmico.

Um problema sistêmico.

Muda a natureza do jogo gente.

Mas você fala assim, muda Ronaldo?

Mas claro que muda, cara.

Claro que muda.

Porque a questão não é simplesmente a geração de energia elétrica, como é a produção de petróleo.

A questão aqui é a geração de energia elétrica, a transmissão de energia elétrica, a distribuição, a utilização, a regularização, a confiabilidade, uma série de coisas que no caso da energia elétrica tem uma dimensão sistêmica.

É por isso que existem certas coisas que estão acontecendo e as pessoas não conseguem entender.

Tem uma dificuldade de entender as pessoas que não são do setor.

Por exemplo, as grandes crises do mundo do petróleo, da era do petróleo, são aquelas crises que são geradas a partir do quê?

A partir da produção de petróleo.

O grande jogo da energia, o grande jogo do mundo do petróleo, está na produção do petróleo.

A renda petrolífera está onde?

Está na produção.

Então, enfrentar, eu acho, os grandes desafios do mundo do petróleo, as grandes crises do petróleo, etc., sempre é o quê?

A produção.

Está no âmbito da produção.

Não estou dizendo que o refino não é importante, que o transporte não é importante, que a distribuição… não é isso.

Estou falando que o coração do jogo, e não à toa onde está a renda petrolífera, é no coração do jogo, que é a produção.

Aí você vai para a energia elétrica.

Eu acho muito difícil você concentrar num lugar... um abastecimento, um problema que tem essa dimensão sistêmica.

Veja o que está acontecendo agora, o grande desafio das energias renováveis.

É porque quando você vai pensar no abastecimento da energia elétrica, você pensa não só na geração, você pensa na geração, você pensa na transmissão, você pensa na distribuição,você pensa na utilização, as políticas voltadas para a gestão da demanda, e hoje pensa muito na estabilização, na regularização, na equilibragem dos serviços ancilares, em tudo aquilo que você tem que fornecer para garantir o quê?

O equilíbrio do sistema.

Petróleo pode ser estocado, gás, carvão, energia elétrica é o sistema em equilíbrio.

Olha que coisa complicada.

Olha como você complexificou o seu problema.

É muito mais complexo, gente.

É muito mais sofisticado. Ou seja, nós estamos desembarcando na era da eletricidade, então nós estamos desembarcando no mundo da complexidade, da sofisticação, da sofisticação tecnológica, da sofisticação econômica, organizacional, institucional, da sofisticação das políticas públicas.

É um outro mundo.

Mas, eu particularmente acho o mundo enormemente interessante.

Por isso, cara, não é à toa que você fala assim, aumenta a capacidade de geração, né?

Aumenta a capacidade de geração, aumenta a capacidade de geração de energias renováveis.

Ué, eu não estou aumentando a capacidade de energia?

Estou.

Eu não tenho capacidade instalada de geração, sei lá, sobrando para dar com pau?

Sim.

Ué, mesmo assim eu estou cheio de problemas?

Está.

Porque isso aqui não é petróleo, isso aqui não é carvão.

O problema não é a geração.

O que acontece hoje?

Você está aumentando, você está aumentando, está aumentando, no caso brasileiro, a geração de energias renováveis.

E qual é o impacto desse aumento da capacidade instalada de geração de energia renovável?

Qual é o impacto disso?

É aumentar a segurança do seu abastecimento?

Não.

É desestabilizar o sistema.

Quando você olha sobre o sistema, você desestabiliza o sistema.

Por quê?

Porque o seu sistema não tem recursos de flexibilidade para segurar essa expansão da sua capacidade instalada de geração renovável.

Olha como é que o problema se equaciona de uma forma completamente diferente.

Por quê?

Meu amigo, energia elétrica é sistema.

Então, a maneira como você resolve as questões na energia elétrica, no mundo elétrico, não é a mesma maneira que você resolve os problemas no mundo do petróleo e no mundo do carvão.

Olha que coisa.

Olha que coisa interessante.

É outro jogo, cara.

Quando a gente fala em segurança energética, quando a gente fala em segurança energética, historicamente, sempre está se falando sobre segurança de abastecimento, principalmente de petróleo, de gás.

Então, ter insegurança energética é ter o fluxo de petróleo, o fluxo de gás interrompido.

Principalmente por questões geopolíticas.

Segurança energética é sempre um pouco disso.

Se o cara não é mais o petróleo, é a energia elétrica, segurança energética é uma outra coisa.

Cara, é outra coisa.

Se o seu sistema energético está baseado em energia elétrica, a discussão é outra.

Segurança do abastecimento?

A discussão sobre segurança do abastecimento é outra discussão.

A segurança energética?

Ah, mas o cara é energia elétrica?

Ah, então é uma outra coisa.

Tanto é que vai ter um seminário da Agência Internacional de Energia, acho que em Londres, não tenho certeza, me desculpe, mas é justamente para discutir isso.

Segurança energética é uma outra coisa.

O que é a segurança energética hoje?

Segurança energética é ter acesso às terras raras, àqueles metais especiais, todo aquele material que é utilizado nas tecnologias de energia limpa Essa que é a discussão geopolítica, enfim, é um mundo de questões.

É um mundo de questões.

Muda completamente a discussão.

Eu achei muito interessante essa afirmação da Agência Internacional de Energia, porque coloca a discussão em outros termos.

Então, meu amigo, não adianta.

Não adianta você falar assim, olha, nós estamos tendo uma expansão grande da produção de energias renováveis, da geração de energia elétrica a partir de energias renováveis.

Estamos aumentando a capacidade de ofertar energia elétrica.

Mas ofertar o quê?

No âmbito da geração.

Quando você pensa no sistema, existe uma série de questões que você tem que resolver.

Questões técnicas, questões econômicas. Sempre chamo a atenção para isso; questões organizacionais, institucionais, políticas públicas, questões regulatórias.

É um mundo.

Então, meus amigos, bem-vindos ao mundo da complexidade, que é o mundo da energia elétrica.

Ou seja, satisfazer as nossas necessidades, cada vez mais, a partir da energia elétrica, como esse processo da eletrificação aponta, eletrificação não é isso?

É a gente satisfazer cada vez mais as nossas necessidades de energia a partir de uma fonte que é a energia elétrica.

Essa satisfação, essa mediação com os recursos naturais, ela vai ficar mais difícil.

Ela é um grande desafio, um grande desafio.

Vai ficar mais difícil em termos tecnológicos, então a gente precisa de inovações tecnológicas.

Fica mais difícil em termos econômicos, então a gente precisa de inovações econômicas, a gente precisa encontrar novas formas de financiamento, novas formas de precificação, a gente precisa encontrar novas formas de organizar a cadeia produtiva.

Então aqui está presente a necessidade de inovações organizacionais, de inovações organizacionais no âmbito da empresa, de novos modelos de negócio.

São grandes desafios.

E quando você vai para o âmbito regulatório, o âmbito das políticas públicas, aqui você também precisa de inovação.

Porque sem inovação, a gente não consegue avançar na descarbonização.

Porque essa é a questão fundamental para terminar. Porque não se trata de uma eletrificação, poderia, talvez seria até menor, se ela não envolvesse a descarbonização.

Podia ser uma eletrificação menor, que também avança, mas avança em uma velocidade menor, que não envolvesse questões associadas à descarbonização.

Vamos imaginar assim, abstraindo-se, a gente não tem as questões da mudança climática, não tem que resolver isso, não tem que fazer descarbonização, então a gente vai mesmo com o que a gente tem, de gás, de petróleo, derivado um pouquinho de nuclear, seja patatá, e a gente segue.

Esse seria um mundo mais simples.

Mas a questão é a combinação da eletrificação de um lado e de outro a descarbonização.

É a eletrificação que bota a energia elétrica no centro do jogo e a descarbonização que tira o petróleo, que tira o carvão, que tira o gás, que tira os combustíveis fósseis do jogo.

Então você vai ter que armar esse jogo da oferta de uma outra forma.

Então, acima de tudo, a nova era da eletricidade, a nova era no mundo da energia, que é a era da eletricidade, é, acima de tudo, um gigantesco desafio.

Um desafio complexo, sofisticado, difícil.

Vai exigir muito.

Muito das instituições...

Porque complexidade, a gente sempre chama atenção aqui, meu amigo, complexidade demanda coordenação, demanda instituições para reduzir incerteza, para reduzir risco, para reduzir conflitos.

Então, eu diria que a nova era da eletricidade também é uma nova era para as instituições.

A gente vai precisar de novas instituições para dar conta dos desafios que são colocados pela nova era.

É isso, meus amigos, minhas amigas.

Queria agradecer muito a vocês pela atenção nessa conversa, nessa discussão.

Espero que esse papo que a gente teve aqui seja útil para vocês, que ajude a vocês a entender o que está acontecendo.

Esse é o nosso último programa do ano.

É o último programa dessa nossa terceira temporada do Curto-Circuito.

Ano que vem a gente volta para uma nova temporada onde a gente vai continuar discutindo os problemas, as grandes questões, os grandes desafios do setor elétrico aqui no Brasil e também no mundo.

Então, mais uma vez, um grande abraço em vocês todos, em vocês todas.

Uma ótima e feliz passagem de ano que a gente está precisando.

Que tudo corra muito bem para vocês.

E a gente se encontra na nova temporada do Curto-Circuito, aqui, no ano que vem, no canal do Instituto de Economia da UFRJ.

Vida que segue e se cuidem.

(Fim da transcrição)

Obs: Transcrição gerada a partir do Spotify.  

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